9 de maio de 2014

Rock Memories: As Tristezas de um Colecionador


No sábado não quis sair à noite fiquei em casa mesmo porque queria ouvir os discos que tinham chegado de manhã, mas como fiquei a tarde toda arrumando a bagunça da semana nem dei atenção para o pacote. Depois de jantar arrumei a cozinha, peguei uma faca e fui para a sala, sentei-me no sofá, peguei o pacote e comecei a abri-lo e de dentro da embalagem retirei três lps. O primeiro era o Cat Scratch Fever, do Ted Nugent, o segundo também era um disco do Ted Nugent, mas era o primeiro, o terceiro era o No Smoke Without Fire, do Wishbone Ash.



Depois de arrumar a bagunça e a sujeira e me mandei para o quarto com os discos na mão tirei o Cat Scratch Fever da capa e já o coloquei para rodar no meu toca discos. Esse disco tem uma história interessante comigo, pois sempre quis tê-lo em lp, mas na década de 1990 nunca consegui nem em fita K7 e por isso tive que ficar chupando o dedo até 2000, quando a Saraiva se instalou em Ribeirão Preto e finalmente pude conferir o disco, mas depois de dois anos não sei por que resolvi vende-lo e agora depois de mais de oito anos consegui realizar uma vontade antiga.

Na seqüência coloquei o primeirão do Ted Nugent para rodar e fiquei deitado na cama entre um anel de fumaça e outro fazendo air guitar em Stranglehold  uma faixa longa e pesada. Durante a audição desse disco quando ele já ia pelo meio do lado dois comecei a relembrar da adolescência já que está compra foi baseada em um momento de nostalgia nada mais legal e apropriado para rememorar. Lembrei-me dos meus amigos hoje já casados com filhos vivendo a rotina de qualquer família tradicional. Só que me veio à mente será que eles ainda guardavam as suas coleções de discos? Será que eles ainda compravam discos? Se tivessem se desfeito de suas coleções ou não e não comprassem mais discos é um direito que eles têm, mas será que às vezes essas escolhas são naturais? 

Pensando mais profundamente, me lembrei de um amigo que eu havia encontrado duas semanas antes na Livraria Cultura, começamos a conversar e a relembrar dos bons tempos, na seção de discos e durante a conversa ele tinha me dito que a esposa o obrigou a vender a sua coleção porque queria ocupar aquele espaço como se a casa fosse apenas dela. Ele tentou disfarçar que estava contente, mas era visível que esta chateado, e talvez até pensasse “será que casar foi uma boa opção”.

Lembrei-me de mais um caso: dessa vez era um colega cuja esposa vivia reclamando, brigando por causa da coleção por causa do espaço que ela ocupava e ficava enchendo-lhe o saco cada vez que o carro dos correios encostava para entregar as encomendas com as preciosidades da vez. Depois de uma de muitas brigas, para evita-las, ele disse que não faria mais compras, mas é lógico que era mentira e as compras continuavam chegando e ela descobrindo e as brigas se renovando. Nessa altura o disco estava chegando ao fim e eu ficava angustiado pensando na tristeza desse colega que precisava fazer algo que abominava: ter que mentir. 

Discos contam histórias de vida, eles tem a mesma importância que o ar que respiramos e os alimentos que devoramos as refeições. Naquela época era impossível ouvir Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, Thin Lizzy, Wishbone Ash, Uriah Heep, Neil Young e não sentir, desejar em ser como eles, e sonhar com um mundo e uma vida melhor, santa juventude. Naqueles dias a música tinha poderes mágicos e por isso juntar os amigos para conferir os discos que comprávamos era um ritual, pois fazíamos uma festa chamávamos as namoradas e passávamos a tarde toda em outros casos íamos até a madrugada como se não fosse existir o amanhã e a música era o nosso representante.

Imaginar aquelas pessoas desejando a volta do passado para poderem reviver aqueles tempos áureos onde tudo era possível e nada podia fazer-nos parar. Sabe quando você oprimido e acaba se conformando, abrindo mão de você em favor de outra pessoas, o que é errado porque abre profundas feridas e faz qualquer pessoa ficar infeliz. No meu caso quando fui casado nunca tive esse problema e até mesmo para ir a shows nunca enfrentei problemas e se caso rolasse alguma tentativa de cerceamento iria numa boa. Jamais deixaria de ser quem sou de gostar de alguma coisa ou mesmo me desfazer das minhas coisas por imposição de alguém, enfim seria a morte em vida, o caminho estreito para uma vida medíocre e miserável.

Eu não encontro um par perfeito e nem quero alguém “perfeito” só quero alguém que entenda e respeite os meus gostos, as minhas opções é simples, a diversidade sempre existiu embora os emburrecidos, que adoram cultivar a mediocridade refutem essa verdade e insistam em viver uma vida miserável seguindo padrões cafonas e a todo custam tentam empurra-los goela abaixo dos outros, quanta arrogância e prepotência não é verdade? Hoje sinto que não estou errado ao querer permanecer solteiro e poder manter a minha liberdade para poder fazer, ouvir, comprar, colecionar o que bem entender.    

Se o casamento é a promessa de liberdade dentro um cenário poético recheados de sonhos dourados cuja máxima “e foram felizes para sempre” descamba para a opressão e só de pensar nisso dá até arrepios, pois imagine montar uma casa e ter que ter quarto de hóspedes para abrigar visitas sempre da família dela, enfim quando você casa com uma pessoa você leva a família inteira é um pacote muitas vezes indigesto da qual tenho repulsa. Só de pensar num replay dessa vida dá até arrepios e por isso me solidarizo com estes amigos que perderam as suas liberdades para mulheres frias, egoístas donas de corpos esculturais no passado e hoje são verdadeiros depósitos de gordura, rios de celulite cujas estrias são piores que os raios dos pneus de um caminhão velho. 

É por essas e entre outros que durmo tranquilo toda as noites, mas me entristeço pelos que provavelmente o fazem com pesar.  Hoje percebo que não estava errado em seguir esse caminho, pois através dele consegui várias coisas boas, e por isso, qualquer tentativa de castração da minha individualidade conquistada ao longo de uma vida ainda em curso e que pretende dar muitos passos pelo mundo sem a obrigação de mentir para ser feliz, e por isso hoje vou dormir tranquilo e você vai fazer o que amanhã?    







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